segunda-feira, 9 de setembro de 2019




ABEL PRIETO EM PORTUGAL



Na sua recente passagem por Lisboa, tivemos oportunidade de trocar algumas impressões com Abel Prieto, ex-presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba, ex-ministro da Cultura, actual director da Oficina do Programa Martiano e Presidente da Sociedade Cultural José Marti.




C – Quando se começou a ouvir falar de Abel Prieto, dizia-se ser “l’enfant terrible” do regime, trazendo ideias e conceitos inovadores no que se refere à cultura e à política do pais em geral. No fundo não seria apenas um jovem a dizer as coisas de uma maneira diferente, mas mantendo os mesmos ideais de Marti e da Revolução Cubana?

AP – Eu creio, Celino, que tentei fazer primeiro na Unión de Escritores e Artistas de Cuba, UNEAC, e depois no Ministério da Cultura, coisas que tinham muito que ver com as ideias de Fidel, quer dizer, tive o privilégio de trabalhar nessa época muito perto de Fidel, inclusive nos anos mais duros, nos anos noventa, nos anos mais amargos, em que Fidel se aproximou muito à cultura, aos artistas, aos escritores e em especial à UNEAC. Creio que seria muito pretensioso atribuir-me, digamos, caminhos novos, caminhos Inéditos ou renovadores. O que pude fazer fiz sempre seguindo o que Fidel ia desenhando e sonhando



C – Para Fidel, a cultura é essencial para transformar as pessoas, para a emancipação humana. De acordo com ele, “sem cultura, não existe liberdade possível”. Foi este conceito que te “obrigou” a permanecer tantos anos como Ministro da Cultura?

AP – Efectivamente, para Fidel pode mudar-se o ser humano e as suas condições de vida. Se é um camponês podes entregar-lhe a terra, se é uma pessoa que não tem onde viver podes dar-lhe um apartamento, podes dar-lhes melhores condições de vida material, mas esse ser humano não se converte num revolucionário se não muda a sua consciência, se não muda as suas ideias. Daí essa frase que tu citas a par daquela ideia Martiana de que “para ser livre há que ser culto”; Fidel a reitera com essa frase, “sem cultura não há liberdade possível”.

Sem cultura tu podes ser manipulado. É o que ocorreu com esta reviravolta à direita na América latina e lamentavelmente também em muitos lugares do mundo, tem que ver com pessoas que são manipuladas de uma maneira muito perversa. Hoje a manipulação com todos estes temas e dados recolhidos nas redes sociais, leva à caracterização do eleitorado por perfis. Percebes como a tradicional manipulação dos meios alcançou um nível de sofisticação realmente assustador? Chamar democracia a umas eleições trabalhadas desse modo é quase uma piada macabra.

Realmente Fidel está convencido desse poder emancipador que tu mencionas na tua pergunta. Convencido de que a cultura está associada à qualidade de vida, não confundindo qualidade de vida com a posse de bens materiais.

Ele estava convencido que o melhor antídoto face ao que chamamos habitualmente consumismo, quer dizer, a ideia desse apetite por possuir, de comprar, de usar, descartar e comprar de novo, essa lógica de desperdício, essa lógica do uso irresponsável dos recursos deste planeta, vai levar-nos ao suicídio colectivo.

De qualquer modo ele considerava que a melhor maneira de combater essa ideia tem a ver com a felicidade, tem a ver com a realização pessoal, tem a ver com a plenitude do ser humano.

O melhor antídoto frente a isso era a posse de uma espiritualidade, de um desfrute, de uma plenitude em termos de poesia, de música, em termos do desfrute das artes, do desfrute do prazer da inteligência e do prazer do conhecimento.

Fidel insistia em que estudar era prazenteiro. Aprender coisas novas era não só acumular informação, como era realizar-se plenamente como ser humano e convertê-lo em algo prazenteiro.

Para Fidel e não só, para Marti e para muitos grandes pensadores da nossa América e de todo o mundo, o conhecimento inclui também uma componente de plenitude e de prazer profundo, real e permanente, não conjuntural nem efémero.



C – Dos variados encontros e longas conversas que tiveste com Fidel, conta-nos um episódio que revele o seu carácter e a importância que ele dava à cultura.

AP – De entre os episódios que vale sempre a pena recordar, corria o ano de 1993 e em que tu acompanhaste de perto o que se passava em Cuba, sabes que foi um ano duríssimo, com o colapso dos transportes urbanos, com uma enorme contracção quanto à oferta alimentar para a população, com limitações gravíssimas em todos os sectores e como dizia a nossa gente com os “alumbrones” em vez dos “apagones” pelos pequenos períodos em que havia electricidade, foi na verdade um momento muito difícil. Nesse ano, no Congresso da UNEAC, Fidel disse: “a cultura é o primeiro que há que salvar”. Vê que coisa tremenda. Num momento do “período especial” em que nos faltava o combustível, nos faltava a alimentação, nos faltava o essencial, ele destaca a cultura como o mais importante.

Claro que ele não nos estava a falar de arte nem de literatura. Ele estava a referir-se a um conceito de cultura mais abrangente que tem que ver com a nação, tem que ver com a identidade, tem que ver com o que somos, como cubanos, o destino do nosso povo, da nossa história, da nossa luta e por aí te revela a transcendência que ele dava à cultura.

Ele estava convencido que a cultura influi nos valores das pessoas. Por exemplo, numa “escola de conducta” ao que chamamos uma escola onde há adolescentes que cometeram delitos, esses jovens são submetidos a um esforço particular para a sua reeducação, para a sua reinserção social, pois nós pensamos que todo o ser humano tem salvação. Inclusive nas prisões, que em muitos países não passam de armazéns de gente descartável, nós preocupamo-nos em realizar trabalhos culturais, existindo até um movimento de teatro de reclusos, tertúlias literárias, etc. Fidel estava convencido que a cultura influi na componente moral do ser humano e na sua capacidade de viver harmonicamente com os demais, ajudando a modificar eventuais comportamentos marginais.



C – A propaganda mafiosa apoiada e difundida por alguns meios de comunicação internacional querem fazer passar a imagem da falta de liberdade de expressão em Cuba. Que nos pode dizer sobre isto o cidadão que por mais de duas décadas teve responsabilidades nesta área?

AP – Quanto à liberdade de expressão, tu conheces bem a cultura cubana e sabes que se há algo que a caracteriza é precisamente a sua liberdade absoluta, a sua liberdade para investigar e aprofundar os nossos problemas. Particularmente, falámos há momentos do cinema cubano, que não foi concebido como arte de propaganda, mas sim como arte para experimentar, para ter a componente crítica e nos colocar perante os nossos problemas quotidianos, ajudando-nos a entendê-los e a solucioná-los.

O filme Fresa e Chocolate, por exemplo, constituiu um importantíssimo papel no combate aos preconceitos contra a homossexualidade, gerando muitos debates em defesa da cubania e ajudando a modificar algumas mentalidades.

As nossas artes gozam de uma extraordinária liberdade e os seus autores exercem essa liberdade com responsabilidade e com um altíssimo nível de compromisso com o que estamos defendendo em Cuba.

Acaba de se realizar o Congresso da UNEAC que foi muito participado e crítico, com a intervenção de vários delegados, sentindo-se uma forte unidade e a vontade de um trabalho mais profundo e revolucionário. A sessão de encerramento contou com a presença do presidente Miguel Diaz-Canel que destacou a importância da cultura cubana e que esta tem de ter um peso social cada vez maior para ajudar o país.



C – Durante a presidência de Obama pareceu que havia alguma vontade de abertura dos EUA para com a cultura cubana. Qual é a situação actual?

AP – É verdade que com Obama se restabeleceram relações, mas embora tenham sido insuficientes porque não suprimiu a proibição de viagens a Cuba, pelo menos sempre autorizava as de carácter cultural, educativo, religioso, científico, etc. Agora com Trump até isso foi proibido com a aplicação integral da Lei Helms-Burton que é uma ofensa a Cuba e ao mundo porque representa o cúmulo da extraterritorialidade, constituindo uma lei imperial inaceitável que tem a ver com a recolonização de Cuba.

De qualquer modo, tu sabes porque conheces bem o nosso país e o nosso povo, nós sobrevivemos a muitas tentativas de nos asfixiar, mas unidos sabemos resistir e dar as devidas respostas, tal como o fazemos desde há 60 anos.

Já este ano tivemos o referendo sobre a nova Constituição o qual teve uma participação maciça de apoio tanto à direcção histórica de Fidel, Raul, Ramiro e tantos outros que assaltaram Moncada ou combateram na “Sierra Maestra”, como à nova direcção presidida por Diaz-Canel, com quadros jovens mas bem preparados para ocuparem cargos de muita responsabilidade, trabalhando no duro dia e noite, pondo o povo como centro do seu esforço e do seu empenho.

 

(Celino Cunha Vieira - Cubainformación)



terça-feira, 30 de julho de 2019



O 26 DE JULHO EM PORTUGAL

Este ano comemorámos o Dia da Rebeldia Nacional no Município Alentejano de Grândola, mais propriamente na Freguesia de Santa Margarida da Serra, onde para além de muitos amigos e do colectivo da Embaixada de Cuba em Portugal, tivemos o privilégio de contar com a actuação do “Grupo Coral Grândola Vila Morena” e do “Quarteto Amigos de Abril” que interpretaram alguns temas tradicionais da música portuguesa de intervenção, terminando com o “Hasta Siempre Comandante” e a “Guantanamera”.

O jornalista e poeta Fernando Fitas brindou-nos com um seu poema inédito com o título “ACORDAR EM MONCADA A UTOPIA”, escrito propositadamente para esta ocasião, que se transcreve na íntegra.

“Não pegámos em armas. Neste lado de cá do oceano
não tivemos o mar, não tivemos um barco.
Faltou-nos o talento para entrar em Moncada e penetrar na serra
ou de viver o tempo das épicas jornadas que inundavam as ruas,
geravam revoluções e tomavam cidades,
para sentir o alento de quantas madrugadas
despontavam nas mãos de quem nada dispunha,
senão a frialdade de um sorriso emprestado,
o néon de bordéis e um charuto apagado nos lábios da ternura,
mas ousara intentar a luz de uma outra era,
atravessando os trilhos dessa Sierra Maestra,
tocando com as mãos o anelo de festa
que transformara Havana no quartel general da liberdade.
Assim, neste oceano triste que nos coube,
retemos entre os dedos a memória de um verso
e um dedal de rum na boca da esperança,
para tomar de assalto a ousadia,
convocar a terreiro a utopia,
essa aresta de vento na fímbria do olhar
e transgredir ainda celebrando-a”.

Para além de Marti e de Fidel, foram também lembrados e homenageados todos aqueles que participaram no dia 26 de Julho de 1953 nos assaltos aos Quarteis Moncada e Céspedes, assim como os que ao longo da Revolução têm dado o seu valioso contributo para que Cuba continue livre e independente.

(Celino Cunha Vieira – Cubainformación)



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019




REFERENDO CONSTITUCIONAL

No passado sábado dia 16 de Fevereiro tivemos o privilégio e a honra de assistir na Embaixada de Cuba em Lisboa à votação sobre o Referendo Constitucional por parte dos cubanos que se encontram em missão oficial em Portugal, tendo comparecido a totalidade dos eleitores inscritos, embora alguns estejam a exercer as suas funções a cerca de 300 quilómetros da capital portuguesa, como por exemplo os médicos colocados na província do Algarve, mas que a distância não os impediu de cumprirem a sua obrigação e o seu direito de cidadania.

O Referendo à nova Constituição que virá substituir a de 1976, terá a sua máxima expressão no próximo dia 24 com todos os colégios eleitorais abertos a partir das 7 horas da manhã em todo o território de Cuba, sendo o corolário de milhares de reuniões e de centenas de propostas que deram lugar a uma nova Constituição aprovada pela Assembleia Nacional do Poder Popular em Dezembro último e que agora irá ter certamente uma aprovação esmagadora através do voto secreto do povo, que sabe estar nas suas mãos os destinos do país.

Numa troca de impressões com alguns eleitores, destacamos algumas novas directivas que passarão a estar consagradas no texto constitucional, como por exemplo o de permitir que um cidadão possa continuar ou readquirir a nacionalidade cubana, mesmo que tenha optado por outra ao longo da sua vida por questões familiares ou migratórias, assim como abrir a possibilidade a que no futuro se possam realizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

No plano da organização do estado restabelece-se a figura de Primeiro-ministro, o limite de idade de 60 anos para se ser eleito Presidente da República, os mandatos para os cargos electivos passam a ter a duração de cinco anos só podendo ser renovados apenas uma vez e é concedida uma maior autonomia para os governos municipais. Muitas outras alterações foram introduzidas mantendo-se os princípios da Revolução, mas a nova Constituição abre outras perspectivas para o plano social, económico e financeiro, possibilitando a que o pais se possa desenvolver com a modernidade requerida pelos tempos que se vivem actualmente.

A cerimónia terminou após o último votante inscrito com a abertura da urna e a verificação por parte dos presentes dos resultados apurados culminando com a leitura da acta, a qual irá ser enviada ao Colégio Eleitoral Nacional.

(Celino Cunha Vieira - Cubainformación)


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018



VIVA A REVOLUÇÃO

Após a dura e decisiva batalha de Santa Clara, Fidel pôde finalmente declarar há exactamente 60 anos o triunfo da Revolução, devolvendo aos cubanos a soberania e a independência do seu país; e se nos dias de hoje a maioria dos seus dirigentes já nasceram depois dessa histórica data, os princípios mantêm-se inalteráveis, sempre fiéis a José Marti e a Fidel Castro, ambos bem vivos na nossa memória e nos nossos corações.

Nesta hora de reflexão não podemos também esquecer aqueles que ao longo de todos estes anos contribuíram para que a Revolução se pudesse manter e melhorar, alguns até com o sacrifício da sua própria vida, convictos do lado em que estava a razão e sabendo que ela se constrói diariamente e que nunca estará acabada. Como disse Fidel, “Revolução é mudar tudo o que deve ser mudado”.

Se é certo que subsistem complicados problemas de carácter financeiro, não se pode culpar a Revolução por isso nem aqueles que lutaram heroicamente por ela, mas sim quem tudo tem feito para a destruir, continuando a impor um criminoso e inexplicável bloqueio económico, financeiro e comercial que está mais que provado que é ineficaz politicamente, pois nunca servirá para vergar um povo que já passou por tantos e tantos sacrifícios ao longo da sua vasta e rica história.

"Caia quem cair, morra quem morrer, a revolução cubana não desaparecerá"
(Fidel Castro, 1 de setembro de 1997)



sábado, 19 de maio de 2018


JOSÉ MARTI

Assinala-se amanhã, 19 de Maio, a data em que em 1895, com apenas 42 anos de idade, José Marti morreu em combate pela independência de Cuba face ao domínio espanhol, tendo sido mutilado pelos soldados inimigos e exibidos os seus restos mortais à população.

Filho de pais espanhóis, Marti nasce em Havana no dia 28 de Janeiro de 1853 e ainda bem jovem, influenciado pelas ideias separatistas do seu professor o poeta Rafael Maria Mendive, publica aos 16 anos o seu primeiro manifesto patriótico em verso, o “Abdala”, estabelecendo como prioridade para a sua vida acabar com o absurdo de às portas do século XX ainda os países da América Latina serem governados por europeus, iniciando a sua luta pela independência de todas as colónias, incluindo a cubana.

Preso várias vezes por motivos políticos, é deportado para Espanha, onde faz os seus estudos superiores primeiro em Madrid e depois em Saragoça, licenciando-se em Direito, Letras e Filosofia. Muda-se para França, depois para o México, onde casa com Cármen Bazón e em seguida para a Guatemala, onde, dotado de uma vastíssima cultura geral, lecciona na Universidade Nacional, acabando por se radicar em Nova Iorque, trabalhando como jornalista, a par da sua actividade de poeta e escritor, publicando centenas de poemas, novelas e dramas, para além de cartas e artigos de jornal. A letra da música “Guantanamera”, conhecida internacionalmente como símbolo da Ilha, foi retirada do seu poema “Versos Sensillos” dedicado ao amor, à mulher e à pátria.

Ao escrever “Nuestra América”, publicado em Janeiro de 1891 num jornal mexicano, José Martí trás para a ordem do dia, o problema da identidade latino-americana que, para ele, passava num primeiro momento, pela organização da guerra contra os espanhóis e, num segundo momento, por um processo educacional que garantisse a dignidade de todos, contra a emergente pretensão de domínio vinda do norte.

Ao perceber essa realidade, Martí propõe a união dos povos latinos como o caminho necessário à integração continental num processo que desencadeasse o despertar contra a opressão social e cultural. Em rigor, Martí propõe a união dos latino-americanos, mas conservando a autonomia e as particularidades de cada país para fazer frente ao neocolonialismo.

Segundo Martí, as administrações das futuras repúblicas independentes teriam de conhecer com profundidade os elementos de que era constituída a sua terra, pois só assim seriam capazes de governar no sentido de se obter uma vida digna.

Assim sendo, a história deveria ser estudada, não só para a conhecer, mas também para a confrontar com os seus problemas, pois, somente conhecendo-a e tornando-a conhecida, a mesma seria respeitada.

Martí, profundamente ligado ao seu tempo, não abria mão da procura constante do crescimento do seu povo. Entendia que era preciso empreender uma cruzada para revelar aos homens a sua natureza e, através dos estudos científicos, promover a independência pessoal e social de Cuba e de toda a América Latina.

Para que os ideais de José Marti não fossem esquecidos e para perpetuar a sua obra, foi construído em Havana um Memorial situado na Praça da Revolução, onde através de exposições permanentes e temporárias se pode conhecer um pouco melhor a sua personalidade, constituindo passagem obrigatória para quem visita a capital cubana.

A sua visão do mundo em pleno século XIX, levou-o a profetizar tudo aquilo que viria a ocorrer no século seguinte, legando-nos um vasto rol de pensamentos e de princípios que ainda hoje estão plenamente actuais.

Desde os domínios coloniais, passando pelo poderio bélico, económico e financeiro das grandes potências, os problemas que se colocam aos pequenos países continuam a ser os mesmos e Cuba, com o desmoronamento em 1989 do bloco socialista, passou por um período tremendamente crítico na década de noventa, o qual só foi superado por possuir um povo digno, abnegado e heróico, tal como Marti.

(Celino Cunha Vieira - Cubainformación)




sábado, 5 de maio de 2018



PRIMEIRO DE MAIO EM CUBA

Quem teve o desejo e a oportunidade de ver através da Cubavisión as comemorações do 1.º de Maio em Cuba, verificou certamente que este ano a participação popular foi maior que em anos anteriores, numa demonstração de completa sintonia com a Revolução e com os dirigentes eleitos recentemente, nunca esquecendo o líder histórico e grande timoneiro dos ideais e das conquistas alcançadas ao longo dos últimos 59 anos por um povo que não se verga e que sabe quais os caminhos que deve traçar para se manter livre e independente.
Em Havana cerca de um milhão de cidadãos de todas as idades desfilaram perante o novo presidente Miguel Diaz Canel e o anterior Raul Castro, os quais, lado a lado, foram acenando e agradecendo as manifestações de apoio e solidariedade de que foram alvo.
No contexto e antes do desfile, o líder da Central de Trabalhadores de Cuba, Ulisses Guilarte de Nascimento fez a sua alocução e agradecimento a todos os participantes, incluindo os das delegações estrangeiras que se deslocaram propositadamente num gesto de solidariedade com Cuba.

Disse Ulisses Guilarte:
“Neste momento histórico para o país, milhões de cubanos em todo o comprimento ea largura do país, estrela em outra mobilização nacional maciça e popular para comemorar Dia Internacional dos Trabalhadores, presidido pelo lema Unidade, Compromisso e Victoria, em um momento em que nos desenvolvemos a partir do sindicato baseia o processo orgânico para o XXI Congresso da Central de Trabalhadores de Cuba, que terminará no próximo ano comemorando o 80 º aniversário da sua fundação.
Temos muitas razões e argumentos para transformar este Dia de Maio numa nova manifestação de apoio à nossa Revolução, a Raul Castro, a Diaz Canel e também num cenário de homenagem ao seu histórico líder Fidel Castro Ruz para ratificar a firme determinação de cumprir o conceito de revolução que nos legou.
Nesta ocasião, a luta heróica faz-nos sentir orgulho de ser cubano dignificando a história do nosso país, como o aniversário 165 do nascimento do herói nacional José Martí, como os 150 anos do início da guerra pela independência, ou o 65º do assalto ao quartel Moncada e Carlos Manuel de Céspedes e o 60º aniversário do triunfo da Revolução.
Ao mesmo tempo, as imagens de destacados líderes trabalhadores que hoje portamos e homenageamos neste enorme desfile como Lázaro Peña, Jesús Menéndez, José María Pérez, Aracelio Iglesias, e outros intimamente ligados às lutas sindicais, constituem o testemunho da nossa eterna gratidão pelo seu exemplo de fidelidade e firmeza.
Da mesma forma, nos desfiles compactos e coloridos, que neste momento decorrem pelas praças de todo o país, reiteramos a denúncia pela cessação do bloqueio genocida económico, comercial e financeiro imposto a Cuba e que agora se intensifica, multiplicará a voz de um povo que exige o retorno do território ocupado ilegalmente pela base naval de Guantánamo, assim como denunciamos a acção agressiva e intervencionista do governo dos Estados Unidos.
A batalha estratégica no campo económico e produtivo das empresas, estatais ou privadas, exige, como nunca antes, a contribuição dos trabalhadores para elevar e diversificar constantemente as produções e melhorar a qualidade dos serviços, juntamente com a necessária eficiência do processo de investimento que é executado nos programas de desenvolvimento do país.
Ao atingir esses objectivos, estamos plenamente conscientes da responsabilidade da classe trabalhadora em gerar a riqueza que o nosso povo precisa para satisfazer as suas necessidades, preservar os ganhos sociais e ter como premissa o aumento da renda real dos trabalhadores e aposentados.
Num dia como hoje, não se pode esquecer que vivemos num mundo caracterizado por uma ordem económica internacional, injusto, desigual e exclusivo, onde a ofensiva do imperialismo e as suas políticas neoliberais continuam a ter impacto no mundo do trabalho.
As reformas trabalhistas, recentemente aplicadas em vários países, eliminaram acordos de negociação colectiva aumentando as bolsas de pobreza, fomentaram os contratos precários onde as grandes vagas de trabalhadores migrantes não têm as garantias mínimas dos seus direitos trabalhistas, da mesma forma que o desemprego aumenta com maior incidência em jovens e mulheres, juntamente com a exibição de propaganda para desvalorizar o papel de classe dos sindicatos.
Cuba e o seu movimento sindical reafirma o firme compromisso e solidariedade militante com os povos do mundo que estão lutando pela sua soberania e independência.
Satisfaz-nos saudar neste acto os companheiros e amigos de diversas organizações sindicais, grupos de solidariedade e movimentos sociais que com a sua presença referendam o seu incondicional apoio à nossa luta para alcançar um mundo melhor.
O Dia Internacional dos Trabalhadores é uma contundente demonstração das sólidas bases da nossa gloriosa Revolução, do respeito maioritário dos trabalhadores e do povo à actualização do modelo sócio-económico do nosso país.
Unidade, Compromisso e Vitória sintetizam a nossa decisão presente e futura de seguir construindo uma nação soberana, independente, democrática e próspera. Adiante compatriotas, nada nos deterá.”

(Celino Cunha Vieira - Cubainformación)





terça-feira, 27 de março de 2018


TRANSFORMAÇÕES EM CUBA

No contexto de uma vez mais alguns órgãos de comunicação social reproduzirem aquilo que lhes chega através das agências internacionais de intoxicação sobre a mudança da presidência em Cuba, difundindo títulos como “o fim da dinastia dos Castro” e tantas outras palermices, cujas intenções são sobejamente conhecidas com o objectivo de menosprezar o sistema eleitoral e especulando sobre a legitimidade de quem conduziu os destinos do país desde a Revolução em 1959.

Já várias vezes tenho escrito e afirmado que o Presidente Raul Castro assumiu as responsabilidades que lhe foram exigidas e confiadas pelas suas qualidades e não por ser irmão de quem era. Muitos não sabem ou querem omitir, que Raul com apenas 22 anos participou no assalto ao Quartel Moncada, sendo um dos revolucionários julgado sumariamente e deportado para a Ilha da Juventude onde esteve preso com todos os outros que sobreviveram à heróica acção que deu início à luta armada para derrubar a ditadura existente no país.

Pela intervenção na clandestinidade do Movimento 26 de Julho e pela pressão popular sobre o poder instituído, todos beneficiaram de uma amnistia presidencial, exilando-se no México e preparando a expedição do iate Granma que os levaria até à Sierra Maestra.

Durante o período da luta armada, Raul foi elevado ao posto de Comandante, tendo liderado uma das colunas de guerrilheiros que cruzando toda a antiga província do Oriente, abriu a “Frente Este Frank Pais” até ao nordeste, revelando toda a sua capacidade militar e de dirigente político.

Após o triunfo da Revolução Raul Castro foi Ministro da Defesa e vice-primeiro-ministro até ser chamado a assumir outras responsabilidades, não por se chamar Castro, mas sim pelo reconhecimento da sua personalidade e dos relevantes serviços prestados à Nação.

Nas funções que agora irá terminar, e será bom recordar que foi por sua proposta a aprovação na Assembleia Nacional do limite de até dois mandatos de cinco anos para todos os cargos políticos, revelando um desprendimento total pelo poder e dando oportunidade a que as novas gerações assumam os destinos do país.

Durante os últimos anos que exerceu a presidência, deve-se a Raul a tentativa de melhorar e desenvolver as relações com os EUA, agora num impasse devido ao ocupante da Casa Branca em Washington, às reformas migratórias em que eliminou todo um processo burocrático que restringia a entrada e saída de cubanos do país, à autorização do trabalho por conta própria e ao desenvolvimento de negócios privados, maiores facilidades para o investimento estrangeiro com a implantação de empresas que se queiram instalar no território, compra e venda de propriedades por parte dos nacionais ou residentes, desenvolvimento das telecomunicações e internet, para além de muitas outras transformações que por serem consideradas normais, ninguém já fala delas ou as valoriza.

Raul Castro foi um grande Presidente e certamente que será substituído nessas funções por alguém que irá dar continuidade aos princípios revolucionários e conquistados com muitos sacrifícios, tendo sempre em mente os ensinamentos de Marti e a elevada visão de Fidel.

(Celino Cunha Vieira – Cubainformación)


quinta-feira, 23 de novembro de 2017



QUISERA EU SER DITADOR COMO TU

Por ocasião da minha recente passagem por Santiago de Cuba, não poderia deixar de ir ao Cemitério Santa Efigénia para prestar a minha homenagem a um Amigo que nos deixou fisicamente há quase um ano e que tanta falta nos faz.
Ainda existem alguns cretinos que não tendo a sua estatura moral e intelectual dizem que foi um ditador, desconhecendo completamente o seu percurso de vida e a sua obra.
Perante o seu túmulo e fechando os olhos, dei por mim a conversar com ele e a dizer-lhe:

Quisera eu ser ditador como tu, para rejeitar as benesses que uma família abastada me poderia proporcionar, optando por liderar uma Revolução libertadora de um povo oprimido e explorado;

Quisera eu ser ditador como tu, para à tua imagem, poder acabar com os agiotas nacionais e internacionais que exploram o meu país;

Quisera eu ser ditador como tu, para que no meu país houvesse uma “libreta” que pudesse minorar as carências alimentares de milhares de pessoas que sobrevivem com extrema dificuldade;

Quisera eu ser ditador como tu, para que todos tivessem direito à habitação sem ficarem devedores a uma instituição bancária durante toda a sua vida;

Quisera eu ser ditador como tu, para que no meu país existissem creches gratuitas para todas as crianças e isso não constituísse mais um encargo para as famílias.

Quisera eu ser ditador como tu, para que das 146 milhões de crianças desnutridas em todo o mundo, nenhuma fosse do meu país, tal como nenhuma é cubana;

Quisera eu ser ditador como tu, para poder proporcionar uma formação gratuita a todos aqueles que querem estudar, podendo atingir os mais altos graus académicos;

Quisera eu ser ditador como tu, para ter um sistema de saúde gratuito e que várias instituições internacionais reconhecessem a outros países, para além de Cuba, um dos maiores índices do desenvolvimento humano e um dos primeiros países a cumprir as metas para os objectivos do milénio, mesmo enfrentando todas as dificuldades que são conhecidas, podendo orgulhar-se de possuir das mais baixas taxas de mortalidade infantil e das mais altas no que se refere à esperança de vida a nível mundial.

Quisera eu ser ditador como tu, para possuir no meu país 1 médico por cada 148 habitantes, tal como Cuba, que é considerado pela Organização Mundial de Saúde a nação mais bem dotada neste sector;

Quisera eu ser ditador como tu, para poder ter mais de 20 faculdades que licenciam anualmente 11.000 novos médicos, entre eles mais de 5.000 cubanos e os restantes de outros 60 países a quem são concedidas bolsas de estudo para que se formem gratuitamente, em igualdade de circunstâncias com os estudantes cubanos, regressando depois às suas comunidades para que prestem assistência aos seus povos;

Quisera eu ser ditador como tu, para poder criar brigadas internacionalistas de apoio sanitário em vários países do mundo onde fazem falta profissionais de saúde pela escassez de recursos ou de primeira intervenção em caso de catástrofes;

Quisera eu ser ditador como tu, para que o meu país tivesse a possibilidade de contar com os mesmos especialistas cubanos para recuperarem ou melhorarem a visão de mais de 2 milhões de pessoas através da “Operação Milagro”;

Quisera eu ser ditador como tu, para continuar a ter condições de receber desde 1986 milhares de crianças vítimas de Chernobyl a fim de serem tratadas dos efeitos nocivos herdados dos seus progenitores que foram expostos directamente às radiações e que passaram para as novas gerações as alterações genéticas causadas por aquela catástrofe e que ainda hoje continua a provocar danos irreversíveis;

Quisera eu ser ditador como tu, para que nem mais um palmo do território do meu país fosse propriedade de pessoas ou empresas estrangeiras;

Quisera eu ser ditador como tu, para afirmar, tal como o fizeste em 1976 perante a Assembleia-geral das Nações Unidas, “Basta já da ilusão de que os problemas do mundo se podem resolver com armas nucleares. As bombas podem matar os esfomeados, os doentes, os ignorantes, mas não podem matar a fome, as doenças e a ignorância. Nem podem sequer matar a justa rebeldia dos povos”;

Quisera eu ser ditador como tu, para que os exemplos que Cuba dá ao mundo fossem seguidos por outros países que têm muito mais obrigações e capacidade económica para o fazer;

Quisera eu ser ditador como tu, para manter uma Revolução bem viva e ter a humildade de reconhecer os erros cometidos, tentando corrigi-los para que não voltem a suceder;

Quisera eu ser ditador como tu, para defender a utopia e acreditar fortemente na nobre ideia de que se poderá aspirar ao impossível e por isso conseguir realizar tantas e tantas coisas;

Quisera eu ser ditador como tu, afastando-me voluntariamente do poder quando entender já não possuir todas as faculdades físicas a que os cargos de responsabilidade me obrigariam;

Quisera eu ser ditador como tu, para não querer que o meu nome ou imagem sejam utilizados como culto de personalidade, considerando que apenas cumpri o meu dever perante a nação;

Quisera eu ser ditador como tu, para depois do meu desaparecimento físico estar bem vivo no coração do meu povo e continuar a ser uma referência para as actuais e futuras gerações.

Até sempre meu Amigo.

(Celino Cunha Vieira - Cubainformación)


quarta-feira, 26 de julho de 2017



SEM MONCADA TERIA HAVIDO REVOLUÇÃO?

Chegados a 26 de Julho, data histórica do assalto ao Quartel Moncada efectuado há 64 anos por um pequeno grupo de jovens comandados por Fidel, colocaram-me a questão sobre se teria havido Revolução sem este acto heróico. Respondi que pode ser que sim, mas também pode ser que não, já que o movimento revolucionário necessitava de uma acção com bastante impacto junto da sociedade para que o entusiasmo da população não desmerecesse e acreditasse que era possível derrotar uma oligarquia corrupta ao serviço de interesses estrangeiros.

Moncada foi sem dúvida o despoletar da Revolução e por isso sempre serão lembrados como mártires e heróis nacionais todos aqueles que perderam a vida em combate directo ou assassinados pelos esbirros do regime, que sem compaixão pelos feridos, acabaram por os torturar e matar friamente. A derrota militar, com todas as suas consequências, acabou por constituir uma enorme vitória política que viria a dar corpo ao Movimento 26 de Julho como vanguarda da luta popular alargada a todo o país, que como se viu mais tarde, seria imparável e de extrema utilidade no apoio aos combatentes da Sierra Maestra e para as batalhas que se seguiram.

Uma outra questão é imaginar o que teria acontecido se Fidel e os companheiros tivessem saído vitoriosos de Moncada, ocupando os objectivos que estavam previamente planeados. O mais provável era que conseguiriam resistir durante alguns dias, mas inevitavelmente teriam de se retirar para a Sierra e esperar a ofensiva governamental, tal como viria a suceder 4 anos mais tarde, evitando-se assim a prisão e o exílio dos que sobreviveram. Mas a vitória política teria sido a mesma? Não, certamente.

Fidel sabia que em qualquer uma das situações o seu instinto o conduziria a uma solução e que as suas convicções seriam imbatíveis porque, como pensava, “todos os inimigos podem ser vencidos” ou, como diria José Marti, o seu mentor intelectual, “trincheiras de ideias valem mais que trincheiras de pedras”.

Acredito que sem Moncada a Revolução teria na mesma existido, com outros contornos é certo, com mais ou menos sacrifícios, mas a situação que se vivia nessa época era intolerável e o povo não poderia continuar a ser explorado e a viver oprimido por um governo sem escrúpulos.

Fidel, o grande timoneiro e Comandante eterno, soube interpretar os desejos do seu povo e com os atributos que lhe eram reconhecidos, entregou toda a sua vida a uma causa, repousando hoje muito perto do local onde tudo começou e onde se jogou o destino da Nação.

Ao comemorar-se o 26 de Julho como Dia da Rebeldia Nacional, festeja-se não só um acontecimento histórico, mas fundamentalmente a heroicidade de todo um povo que tem sabido resistir a todos os constrangimentos e sacrifícios que lhe são exigidos, em prol da sua soberania e independência.


(Celino Cunha Vieira - Cubainformación)